Comigo me desavinha
até pelo meio do caminho
cantar um sabiá
Estrada do Tambory --
Ao vendedor de vassouras,
responde um bem-te-vi.
O anjinho e o poema
Deixei cair, e se quebrou, um dos três anjos de porcelana que havia sobre o forno de microondas (lugar, que, aliás, depois julguei ser nada propício para tais personagens, os quais se ainda fossem diabinhos, acredito, teriam mais a ver, tal qual o pinguim e a geladeira). Ela ficou arara! Para acalmá-la, propus escrever uma poesia, mas a resposta dela deixou-me também em cacos: “Poema para mim, para quê? Versos não colam, e nem servem para substituir anjos de porcelana estilhaçados. Além disso, não têm mãozinhas juntas espalmadas em oração, asinhas, e muito menos aquele par de olhinhos, contritos e piedosos, voltados para o céu!”
Sapatos
De um par de sandálias, um de sapatos, e outro de chinelinhos, repousando lado a lado num canto do quarto, emana toda a paz, transluz toda a alegria que a casa tem...
Vilarejo
Tinta já desbotada da cruz de madeira pintada de azul: prova de que o tempo também sabe onde fica a pequena vila ilhada entre morros, a menos de cem quilômetros da metrópole que ruge.
Carcaça
Jaz servindo de poleiro para galinhas, adornada por um ramo de quaresmeira, no terreno de um casebre à beira duma estrada de terra, onde enferruja com a mesma paciência e vagar que por lá passa o tempo, a carcaça de um Fusca...
Pipa
Fazendo grande algazarra, guris disputaram a pipa presa entre os galhos: as goiabas, já maduras, ficaram para os pássaros.
Aos leitores:
Dois haicais, cujos pássaros são kigo (termo de estação) da Primavera, e cinco minicrônicas (ou haicrônicas, como gosto de chamá-las), apenas para dar uma renovada no Barulho d´água, que a correria do Página Zero não está me deixando cuidar como eu gostaria. Até a próxima edição!
Marcelino Lima