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Amigos: Está edição corresponde à 5 do blog Barulho d´água, que estou republicando juntamente com a 4, que começa no haicai "Velho no farol". Por engano havia retrirado ambas do ar. Estou tentando recuperar a 1,2, e 3, mas acho que não dá mais. Se algume tiver cópias dos textos postados nelas, agradeço se me reenviarem! Um abraço!
Uma imagem, diz um ditado popular, vale por mil palavras. E pode inspirar um haicai, acredito eu, embora os mais clássicos -- haijins que seguem rigorosamente normas tradicionais de produção -- preguem o contrário -- ou seja, é o haicai que deve gerar imagens na mente do leitor, e não o contrário. Para eles esta inversão força a interpretação da imagem, consequentemente, resultando em textos artificiais, não-espontâneos, como deveria sempre ser o do bom haicai. Respeito-os, mas polêmica à parte, convido os leitores deste blog a conhecerem meu mais novo projeto, o fotoblog karumi.nafoto.net, que acabo de por no ar, contendo fotos ou ilustrações de minha autoria (a maior parte) associadas a haicais também meus (a maior parte). O termo Karumi, que não inventei, indica leveza, um dos atributos que o bom haicai deve conter. O fotoblog, amigos, está aberto às críticas, mensagens, sugestões de fotos, imagens e de poemas, tá?
Quanto ao Barulho d´água está difícil mantê-lo com periodicidade definida devido à correria do Página Zero e às constantes solicitações do lar – leia-se Rosa e Jorge Henrique, Portuga, Mel, Isadora... Nesta edição, na qual ficarei devendo a haicrônica, em homenagem ao outono, que começará oficialmente dia 20 de março, seguem os poemas abaixo. Eles expressam duas características da estação que, para os orientais, também é de recolhimento, de contemplação, de reflexão sobre a vida que entra num estágio que seria o início da velhice. Esta bela significação aqui está descrita de forma sucinta. Por isso, a quem tiver tempo e curiosidade, sugiro ler a respeito, buscando indicações em www.kakinet.com. Outra dica é o sítio do jornal Nippo Brasil, onde há a coluna Pétalas ao Vento, e cujo endereço pode ser acessado visitando o Caqui on line, legal?
No céu de maio,
além de muito azul,
apenas um boeing...
Lá vem o carteiro –
Na tarde de outono, enfim,
um pouco de amarelo.
Marcelino Lima
henrimarlima@uol.com.br
marcelinoimprensa@hotmail.com
www.karumi.nafoto.net
Escrito por Marcelino Lima às 15h28
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Velho no farol
vendendo buquês de rosas –
O sorriso é brinde.
O dia-a-dia nos oferece situações e personagens capazes de render àqueles que têm olhar e ouvido abertos excelente material para inspirar ou servir como ponto de partida para poemas e crônicas. Se a “correria” nos impede estar atento a estas ocorrências, é preciso só um pouquinho de “treino” para não perder detalhes que revelam belezas ou momentos únicos, mas marcantes. E este exercício, que pode até funcionar como terapia e/ou elevação espiritual, é possível ser tentado não apenas por poetas, por escritores, por jornalistas, por fotógrafos e por outros que lidam com a realidade de forma profissional ou artística, tentando retirar dela o que os inspira a escrever ou a criar. Você também, caminhando, de dentro do ônibus, dando bobeira ao espiar pela janela do quarto pode experimentar e, assim, captar o canto de um passarinho verde entre freadas, buzinas e o zunir de motores onde antes julgava ter apenas muito concreto, poluição sonora, e frieza...
Delicadeza
A caminho de casa, depois de um exaustivo dia de trabalho, ainda por cima tórrido, ela só queria estar logo em casa. Desejava um bom banho, só depois pensaria no que fazer com o resto do dia. Ar condicionado ligado, vidros fechados, rádio sintonizando notícias sobre o trânsito, sempre caótico naquele horário, ainda mais complicado por ser época de festas. Para não adiar o encontro com o chuveiro, se fosse necessário, buscaria uma rota alternativa. Perderia dez, quinze minutos, rodaria alguns quilômetros a mais, tudo bem, importante era chegar em casa, ah, com aquele calor! Zapeando ouviu a emissora recomendar que evitassem a avenida Estadual, justamente o corredor de ligação com a saída para atingir o bairro onde ela reside. Plano B, então. Neste caso, além do tempo a mais, um porém a deixava um pouco preocupada: passar bem perto da entrada de uma favela, e provavelmente, amargar um sinal vermelho num ponto considerado bastante crítico, motivo de várias recomendações das autoridades, para variar, jamais com uma viatura protegendo o pedaço. Perto do local, checou travas das portas, tirou a bolsa do banco do carona, escondeu-a sob o lugar onde estava sentada. Livrou-se do relógio, dos brincos, dos anéis, juntando-os com a frente do rádio no porta-luvas. Um cinqüenta metros antes do sinal, verde, até então, deu uma geral, não viu ninguém ou nada suspeito ao redor, julgou estar com sorte e já ia dando graças a Deus quando a luz mudou de cor.
Obrigada a parar, e, ainda por cima, primeira da fila, suspirou fundo, tamborilou os dedos ao volante, depois os apertou com as mãos fechadas e levemente suadas enquanto checava aos lados. Foi quando viu se aproximar um jovem, roupas surradas, sujo, descalço. E vinha em direção à janela dela, cambeteando, parecendo bêbado, ou, sabe-se lá, drogado. Já se aproximando do carro, o jovem notou: à direção havia uma moça, que, por sinal, parecia bem interessante. Ela percebeu a surpresa dele ao vê-la, pois ele chegou a inclusive demonstrar certo contentamento e esboçar um sorriso maroto. Então, pensou: ai, é hoje, o que vou fazer, meu Pai, ajude-me! O temor aumentou quando o sujeito encostou no vidro, levou a mão por trás da própria cintura, tirando de lá algo que trazia consigo. Encolhida, olhos cerrados, escorregou em direção aos pedais, não dava a mínima às batidas no vidro, apenas balbuciava rezas. A agonia era tanta que também não a despertavam do pesadelo as buzinas insistindo para que seguisse logo em frente, já que o farol abrira. Não sabe quanto tempo depois teve coragem de descerrar os olhos e, instintivamente voltá-los para o rapaz. Neste instante, levou um baque, quase morreu... de vergonha! Todo delicado, indiferente aos xingamentos dos demais motoristas que já contornavam o carro dela empacado à frente, o camarada oferecia a ela uma rosa. E tinha no rosto uma expressão de quem avisa: só iria embora quando a gentileza fosse aceita e a flor pega...
Marcelino Lima, dezembro de 2.005
Escrito por Marcelino Lima às 15h17
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